Por Zilanda Souza
No atendimento aos pais, esta é uma pergunta muito presente: devo castigar meu filho por causa do seu baixo desempenho escolar?
Os pais querem respostas, eu porém refaço a pergunta: como vocês se sentiriam se fossem castigados por não conseguirem realizar uma tarefa? Como se sentiriam sendo repreendidos por não saberem determinado conhecimento?
Primeiro é preciso compreender o que a maioria dos pais chamam de "castigo". Normalmente eles relacionam a castigo, o fato de privar os filhos de prazeres, tais como televisão, vídeo game, passeios, uso de celular, futebol e academia.
Minha pergunta como terapeuta da aprendizagem é: ausência de celular, vídeo game, televisão, passeios, ensinam os conteúdos que os filhos não sabem? Déficits de aprendizagens são supridos com os tais castigos?
Então é preciso ir mais fundo nesta questão. Aprender exige mobilização de alguns recursos externos e internos. É preciso observar quais os recursos externos são oferecidos às crianças/adolescentes:
- Seu filho tem uma rotina construída em família? Como está organizado o dia do seu filho? Há diversidade de atividades, tais como intelectuais, físicas e livres como o uso do celular e computador?
- Vocês reconhecem os esforços do seu filho? Conseguem enumerá-los?
- Qual o lugar dos presentes na família? Quando os filhos são presenteados? Eles costumam receber presentes e benefícios sem motivo justo para tal? Há carência de reconhecimento e benefícios?
- Em que ambiente seu filho estuda? Alguns adolescentes tendem a escolher o quarto, mais precisamente a cama para estudar. Esta é uma posição que nem sempre colabora com o aprender. É preciso postura adequada e ambiente tranquilo.
- Quais são os distratores presentes no ambiente de estudos? Algumas crianças/adolescentes, querem estudar com os livros, computador, celular e televisão ligados. Alguns dizem dar conta e provam isso com alto rendimento. Outros não. Cada criança/adolescente tem construída sua forma individual para estudar. A atenção seletiva, capaz de inibir os distratores e selecionar o que é importante, nem sempre é encontrada em níveis satisfatórios no funcionamento do córtex pré-frontal e portanto, esse dado sinaliza a necessidade de preparar esse ambiente, retirando ao máximo os distratores. Observe seu filho e veja como ele estuda melhor!
- Como acontece o monitoramento dos estudos? Crianças/adolescentes precisam desenvolver autonomia para estudar, porém a família precisa construir uma forma diária/semanal para monitorar esses estudos, certificando que o dia/semana foi produtivo (a), ouvindo-os sobre os avanços e as dificuldades que ainda persistem.
Os itens acima retratam uma mobilização externa para o aprender. Espera-se que esta mobilização interfira positivamente nos processos internos que acontecem nas mentes dos nossos meninos, construindo finalmente novas memórias. E se não acontecer, entramos com o castigo? Não!
Quando o baixo rendimento ainda persiste, mesmo sob uma mobilização externa familiar adequada é preciso avaliar as funções cognitivas e executivas da criança/adolescente. Este é um sinal importante de que algo internamente pode não estar funcionando como deveria. Portanto é preciso investigar e tratar!
Pressionar, castigar, estabelecer cargas pesadas de estudo para uma criança/adolescente com risco para transtornos é fazer o papel de inimigo do desenvolvimento. Quadros como estes, acabam desencadeando outros comportamentos complicadores: aversão à escola, indisciplina, baixa autoestima, dentre outros.
O sistema de disciplina na família precisa ser coerente ao que as crianças/adolescentes podem oferecer. Para implantar as regras é preciso ter certeza de que as mesmas foram devidamente ensinadas e que os filhos não estão sofrendo com a ausência exacerbada dos pais.
As regras e os limites construídos, bem como o sistema disciplinar da família, devem expressar amor e interesse pelos filhos. Não se deve disciplinar um filho porque ele não sabe potenciação. Mas se foi instituída a regra do estudo diário, e ele não a cumpriu devidamente, então ele deve ser disciplinado porque não cumpriu a agenda de estudos.
Saber o momento para ensinar, disciplinar e tratar, depende do critério de presença dos pais, quanto mais presentes na vida dos filhos, mais informações os pais terão de como agir e do momento certo de encaminhar os filhos a um terapeuta da aprendizagem.




