Por Ronaldo Bertoletti
Cuido tanto tempo, de tanta coisa, que o tempo virou competência da dinâmica inacabada de alguém que corre de um lado para o outro colocando a roupa do garoto, preparando seu lanche, seu bem estar e para isso eu de alguma maneira tenho que me deixar. Me deixar quieta num canto, com sonhos às vezes ou quase sempre adiados, calados e eu vou me deixando.
Sabe o que é ter que dar sempre respostas ou ser a resposta a tantas cobranças? Não é simplesmente cuidar, mas entregar-se, doar-se a cada dia, isso sim é cuidar. E quando exijo tanto de mim e tento responder até com perfeccionismo aquilo que esperam de mim?
Querer cuidar bem e não ser cuidado é possível? Ou como ser um bom dispenseiro de cuidados, quando você não usa essa mordomia do tempo, do cuidado pessoal, da saúde consigo mesmo? É possível ter esse amor prático sem a prática do amor próprio?
Quem cuida precisa ser cuidado. Quem cuida de você, enquanto você cuida de seu filho? Vida saudável para o seu filho sim, antes porém, vida saudável para você. Você cuida de seu filho e quem cuida de você? Se você sente-se bem com relação a educação do seu filho, será que não tem interesse em cuidar do seu crescimento, do seu crescimento intelectual? Cultural? Pesquisas mostram filhos motivados e encorajados com seus pais envolvidos com trabalho, estudo, novos desafios, mais do que daqueles que simplesmente passam a vida apenas simplesmente dedicados aos cuidados domésticos e “contemplação” da vida.
Quando me sinto confortável com meu bem estar, saudável com meu corpo, eu demonstro de maneira prática a mordomia com aquilo que foi confiado a mim mesmo: a minha vida! Não é bom sentir-se sozinha(o), mas sentir-se seguro e acolhido. Bom amar, mas experimentar amar-se antes. Isso é a pratica do amor e do cuidado. A verdadeira empatia de quem cuida, é antes sentir-se parte da vida e não apenas apoiador, incentivador e cuidador. Precisamos não sentir vergonha ou egoísta naquilo que é uma necessidade simples mas importante: o de sentir-se valorizada, ouvida, não se calar, mas demandar, falar, agir, pedir, viver, se cuidar, crescer. Não reagir com silêncio nem com temores, mas o amor prático é o que cuida de si mesmo em primeiro lugar. Não tão somente o reconhecimento ou declarações de amor ou coisa assim, não é isso que nos falta, mas deixar de viver a prática do amor, do amor próprio, do amor de quem cuida mas não deixa de cuidar de si mesmo.






